MAR

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21 março, 2012

Um poema de Al Berto (1948-1997

 

Os Amigos

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

Al Berto, in O Medo

2 comentários:

Anónimo disse...

Lindo!Lindo!
Pessoal, vamos lá a acordar para o que Portugal tem de melhor.
Al Berto é amor, emoção, delirio das palavras. Escreveu como ninguém...comove como só ele... leiam-no, em voz alta ou no intino do vosso ser.

Grace disse...

Concordo inteiramente!
Al Berto é tudo isso, é uma fusão de sentimentos...