MAR

MAR

11 janeiro, 2012

Al Berto (11.01.1948 - 13.07.1997)


                                               Eugénie Chebot (canvas/oil 80cm x 60cm 2009)

Incêndio


      Primeiro alinhas as canetas de tinta permanente. Uma com tinta negra, outra com tinta azul. A terceira está vazia.
      Sentas-te e debruças-te para o caderno de capa preta. O silêncio arde por toda a casa.         Abres o caderno onde sepultaste, há dias, umas quantas palavras. E ao abri-lo caem as imagens sobre a mesa. O caderno volta a ficar branco - o caderno, a nocturna memória do mundo, a vida. Tudo branco como a morte.
      Nenhum corpo cresce, nenhuma sílaba ficou esquecida no papel, nenhum eco do coração.
      Sentado, como se estivesses sentado sobre o mar, escutas o lento bater nos confins dos ossos. Mas já nada tremula na luminosidade plúmbea do dia. Nada se acende, ou apaga nos céus.

       O dia afoga-se lentamente, na treva do mar.
      Deitas-te, então, ao lado do morto que ainda não és. E dele se liberta um anjo mudo que vem habitar teu corpo.
       A vida, como sabes, tem o tempo da areia que se escapa por entre os dedos. Areia rápida e branca. Esvoaçante.
       Agora, a ausência - a tua - é um rosto silencioso. E a tua mão está enterrada no tesouro das horas.
       Finges dormir para que a dor não deixe rastro no sangue. Nada se move dentro ou fora de ti, excepto o vento no interior dos ossos...
    Corpo aéreo, azulínea música rente à claridade da pele.

    Páras de escrever. Recostas-te na cadeira e murmuras: da paixão ficou o estremecimento de terra nos teus dentes, e a sombra de um nome rasgando o crepúsculo.
    Fechas as pálpebras. O canto ergue-se nítido, sobe ao encontro da boca.
    A teu lado está morto. Inerte e desprotegido - dentro do poema que há-de vir.
   Tocas-lhe, como se ainda se escoasse vida no seu sangue. Mas no cimo da penumbrosa montanha inicia-se o degelo. Abres os olhos, pousas a mão no papel, escreves.

    Tocar a luz, qualquer luz, não consegue ressuscitar nada. Sílaba a sílaba tudo continua imóvel. Mesmo quando as palavras se agitam e são voláteis, cortam a respiração - ou quando são vegetais e largam um fio de seiva quente na língua.
     Porque é do silencio poroso do anjo mudo, da fala incandescente do seu olhar que, de quando em quando, surge o poema.

     A febre desperta o desejo. Uma asa do anjo incendeia-se, desprende-se do corpo - estilhaça-se no éter da paisagem.
     A pouco e pouco, acordas. Ouves o assustador rumor das águas e dos astros. O calor sufoca-te.
     Continuas a não pressentir o fim do corpo. Anotas: falo da última morte para melhor celebrar a vida.

     O dia esvai-se quando, nos céus, se enchem de fogo os olhos vazios da noite.
  Vem uma tristeza escura coalhar-se-te nos lábios. Repetes as palavras que ambos conhecemos. A cinza da asa incendiada flutua, por fim, em cima da folha do caderno - e a mão percorre a memória deste corpo. Mancha o papel.

     O tempo, longe daqui - onde passam comboios - já se esqueceu. O cansaço devassa-te. Lá fora os cães ladram, onde ainda há mundo.
     Mas o mundo foi assaltado. Dele roubaste o que restava de ti. Nenhuma emoção, nenhum sentimento, te pode perturbar.
     O mar apagou teus passos. Sabes que é difícil viver sem um rastro. Mas o Poeta não necessita de um biógrafo, ou de um amante, nem de morrer violentamente - para que se perturbe o canto do homem.

     O viajante que foste espreita por trás da máscara, sorri, prossegue caminho. Afasta-se com o sangue do anjo nos lábios.

Al Berto, Anjo Mudo

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