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29 novembro, 2009

Art Déco, 1925 na Gulbenkian


ART DÉCO, 1925
16 de Outubro de 2009 a 3 de Janeiro de 2010
Galeria de Exposições da Sede
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A evocação do período «Art Déco» em França, através da Exposição Internacional das Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925, é amplamente justificada pelo confronto entre um modernismo moderado e uma vertente de cariz mais revolucionário que caracteriza as Portas dos Pavilhões e o vocabulário formal dos decoradores de então. Os sete meses em que a exposição internacional esteve patente ao público permitiu salientar uma dualidade latente que veio a caracterizar as artes decorativas até à Segunda Guerra Mundial.

O objectivo primordial daquela Exposição, definido pela sua Comissão Organizadora num relatório de 1915, excluía toda e qualquer referência à tradição. No plano formal, esta iniciativa deveria manifestar-se exclusivamente através da «Arte Moderna», de uma espécie de «Renascimento» artístico que, do ponto de vista social, produziria uma resposta «tanto às necessidades mais modestas como aos caprichos do luxo».

Paradoxalmente, a partir do estudo das obras apresentadas nos diversos Pavilhões franceses – mobiliário, objectos de artes decorativas, pintura e escultura – resulta um conjunto diversificado onde coabitam um modernismo muito particular e um neoclassicismo dominante, mais exuberante que despojado.

O objectivo da exposição, a apresentar na Fundação Calouste Gulbenkian, comissariada por Chantal Bizot e Dany Sautot, especialistas convidadas, assenta nesta ambiguidade – uma «unidade singular» - reunindo apenas trabalhos dos melhores artistas e das mais destacadas manufacturas e ateliês seleccionados para a Exposição de 1925. Muitas das obras aí patentes integram a mostra que agora se apresenta, como por exemplo o grupo escultórico de Janniot, A Primavera, concebido expressamente para o Pavilhão Ruhlmann (Hôtel d’un riche Collectionneur), adquirido por Calouste Gulbenkian em 1939.


Estarão presentes peças de mobiliário de Ruhlmann, Leleu, Groult e Dunand, ourivesaria Christofle, jóias de Van Cleef & Arpels, Cartier, Chaumet e Boucheron, cerâmicas de Jourdain e Braquemond, porcelanas de Rapin, pinturas de Le Corbusier, Léger e Laurencin, esculturas de Janniot e Joseph Bernard, vidros Baccarat e de Lalique, têxteis de Dufrêne e Miklos, e ainda livros ilustrados e encadernados (Schmied, Dunand e Legrain), provenientes de colecções públicas e privadas estrangeiras, maioritariamente francesas, e também nacionais, incluindo a Colecção Calouste Gulbenkian.

22 novembro, 2009

Al Berto

Le plus grand calligraphe


les mots.
les motsfruits les motsjus les mots à mordre les mots à tordre les mots à jouir les mots à cuire les mots voyage les mots
des noms
voici des noms: Nerf-Kid = Tangerina = Kalou on Ice = Oli = Salive = Henriette Rock = A. Petit-Pieds = Peter Schlagger = mon fruit à mordre, toutes les heures
l'astronaute halluciné l´exil et l´après-exil l´écriture

l'astronaute halluciné l'exil et l'après exil l'écriture
un espace les mots fous mordre les fous mordre les mots qui bavent du corps
les textes le même texte toujours un autre même texte
le mirage du corps déserté je l´observe
un texte de sable qui flotte avez les grands vents l´eau la mer et l´océan plus vaste
l´écriture humide des algues sous les marées de lune la mer marchée dans la transpiration du sel des fruits de l´eau les fruits de mer
les fruits de l´air
un espace suicidaire une véranda la gare la ville le port la peau la peau
de nuit
les fleurs en tissu fané les oripeaux d’organdi les transparences
transparentes comme une toile d’araignée
l’accident les dérives un corps de femme-homme un corps sans sexe
étendu sur un lit pauvre d’un quelconque hôtel acidulé
écrire
écrire jusqu’á l’épuisement épuiser le corps saturer le texte écrire les
mots sucrés qu’on ne peut plus comprendre
écrire de façon à ne plus comprendre ce qui a été écrit
oublier
sauter dans l’espace-temps des voies lactées
l’anecdote du discours ne fait plus rire c’est la tragédie du vécu-exagéré
les lieux de sainteté les bouches du métro aux couleurs d’essence et
d’entrailles
les caresses ensanglantées de la ville des jambes élancées dans le vol le
sifflement nocturne des villes
je n’explique jamais
je ne suis que le chroniqueur de ma viemorte
la peur commence à la surface de la peau
Kalima prisionniére dans la chambre-mémoire un regard de papillon nu
c’est la métamorphose des étoiles
avant c’étail moi/je maintenant il/elle et demain nous sans sexe images
aux couleurs sensitives
les mains en sont son écran la voyante marche le livre du chaos sous le
bras ensanglanté
(des lettres oui des lettres qu’on salive amoureusement)
le pélerin marche
ses pas calligraphient la mort sur les sables durs de la nuit
une étoile d’essence
le désert
il est le plus grand calligraphe il traverse
je répète : il traverse sans peur

in O Medo, Al Berto (pp.77-78, 2000)

21 novembro, 2009

Adriana - Cara ou Coroa

Adriana no CAS


Hoje, às 22h, no Centro de Artes de Sines


Aos 25 anos, Adriana lança o seu disco de estreia, um álbum com o seu nome e onde a artista canta e toca flauta, guitarra e piano. “A voz de Adriana chega devagar. Passa primeiro ao largo, num jogo de sedução discreto, como quem nem reparou em nós, mas sabe que não temos por onde escapar. Não nos dá a mão e não nos arrasta consigo à força. Vai-nos envolvendo docemente, com vagar, nos meandros de uma pop leve, levezinha que navega livremente entre o jazz, a bossa nova e uma música portuguesa sem idade. Como se o balanço de cada sílaba, embrulhado num delicioso embalo rítmico, se passeasse de braço dado com melodias de uma simplicidade quase infantil e, por isso, quase perfeitas”. (site oficial de Adriana). No concerto em Sines, Adriana é acompanhada por Rodrigo (Viola),Miguel Magic (Baixo), Emanuel Andrade (Teclas) e Emanuel Ramalho (Bateria).

Informação retirada
do CAS

08 novembro, 2009

Graça Morais expõe na Galeria Ratton




A Pintora Graça Morais regressa à Galeria Ratton, em Lisboa, com a exposição “A Máscara e o Tempo” em que expõe 42 trabalhos de 2009, pintura e desenho sobre papel.
A inauguração realizar-se-á dia 11, às 22h.

Estes trabalhos são fruto de uma reflexão “em que a artista se distancia voluntariamente da sua obra para se colocar na posição do observador atento, interpelando a sua inteligência sensível, os seus valores éticos, reflexo de uma identidade própria ligada a uma geografia de afectos que percorre a sua vida e se espelha nas pinturas e desenhos aqui apresentados."

A mostra vai estar patente até ao final de Janeiro de 2010.

07 novembro, 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de Novembro 1919. Se ainda estivesse connosco, festejaria 90 anos.
Mas como a sua obra continua viva, recordemos um poema seu.



Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

03 novembro, 2009

Morreu Claude Levi-Staruss


Claude Lévi-Strauss (Março 2005).
PHOTO: AFP


Aos 100 anos, morre o escritor e antropólogo Claude Levi-Strauss.
Morreu na madrugada de domingo o etnólogo e antropólogo estruturalista Claude Levi-Strauss, informou, hoje, o jornal francês Le Monde. Conhecido por seus estudos sobre antropologia, o intelectual é autor de Tristes Trópicos (1955), livro sobre viagens feitas à região central do Brasil.
Membro da Academia de Ciências Francesa desde 1973.

02 novembro, 2009

Prix Goncourt 2009




lundi 2 novembre 2009, le Prix Goncourt 2009 a été attribué à Marie Ndiaye pour Trois femmes puissantes, chez Gallimard.
Marie Ndiaye, première femme à obtenir le Goncourt depuis 1998.




Marie NDiaye, Trois femmes puissantes by Mediapart

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Trois femmes puissantes (en quoi ? nous tenterons de le comprendre), trois moments du roman, largement autonomes et cependant liés les uns aux autres par un pays, le Sénégal, l’atmosphère de malaise, sinon de drame, le crescendo du dénouement.

Jorge de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Bárbara, 4 de Junho de 1978)

Jorge de Sena faria, hoje, 90 anos. Regressou à pátria 31 anos depois de ter morrido na Califórnia.
Jorge de Sena partiu para o exílio há 50 anos por causa da ditadura e nunca mais regressou. Vinha a Portugal apenas de visita .
Deixou-nos este poema...


A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. ƒÉs cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não


Jorge de Sena


01 novembro, 2009

O muro do fundamentalismo por Inês Pedrosa


«Caim», de José Saramago, é um romance, isto é: uma ficção literária. É, além disso, um bom romance, isto é: uma narrativa de grande beleza que rasga o tecido dos saberes sossegados e ergue um vendaval de perguntas.


No lançamento deste romance, no «Escritaria» de Penafiel, evocando o Padre António Vieira, Saramago recordava essa coisa só aparentemente simples: escrever é «conhecer o sítio das palavras». A sua disposição exacta na frase. Escrever é escolher, e a escolha pressupõe conhecimento das múltiplas possibilidades em jogo. Saramago debruçou-se sobre a Bíblia, o livro que determinou e determina ainda a visão do mundo que nos enforma, e interrogou as escolhas de deus – assim, com a mesma letra minúscula que usa para cada membro da humanidade por ele criada, porque é preciso abandonarmos a maiúscula da reverência quando queremos interrogar genuinamente. E viu-se mergulhado num dilúvio de vozes escandalizadas – algumas, poucas, de forma transparente, e a maior parte delas disfarçando o escândalo nas trincheiras da análise intelectual de segundo ou terceiro grau. Explicam-nos essas vozes doutas, esforçando-se por conter a ira nos infolios da erudição (às vezes mal; salta-lhes o tom), que a Bíblia não pode ser lida de forma literal: tudo o que lá está é para ser interpretado, deduz-se que pelos doutores que reclamam a interpretação. Talvez por isso, de facto, a Igreja Católica nunca tenha feito grande esforço para publicitar o Velho Testamento, antes pelo contrário: nos meus dez anos de catequese consecutiva só me mandavam ler o Novo Testamento, e por partes. Quando, em 1991, Saramago publicou « O Evangelho Segundo Jesus Cristo», a polémica foi alta, mas o escândalo circunscreveu-se às instâncias religiosas propriamente ditas – e a um patético senhor do PSD, então com poder bastante para impedir que a obra fosse considerada num prémio europeu. Agora apareceu outro senhor do PSD, felizmente sem poder, a pôr-se em bicos dos pés para aproveitar a onda.
O escritor leu e releu a Bíblia e verificou uma evidência: que ela é um «manual de maus costumes, um catálogo de crueldades». Aliás, Saramago não foi, nem pretende ser, a primeira alma a ter feito essa verificação: sim, a Bíblia é também, entre outras coisas, esse catálogo. Há cerca de dois anos, Christopher Hitchens publicou « Deus não é Grande – como as religiões envenenam tudo» e Fernando Savater publicou «A Vida Eterna», dois excelentes livros sobre a questão da maldade divina – ou de como os homens inventaram deus para se matarem uns aos outros. Na época, não vi nenhum dos que agora se assanham contra Saramago contestar as teorias idênticas de Hitchens ou Savater. É curioso que um romance, mesmo antes de ser lido, cause um terramoto que nenhum destes ensaios causou.

Uma vez um padre irritou-se comigo porque eu me recusei a ler, num casamento, aquela célebre carta de São Paulo que começa por dizer que o homem é a cabeça da mulher como Cristo a cabeça da Igreja, e exigi ler um texto do Génesis que a ele lhe parecia «muito carnal». Necessitado de exegese e enquadramento, portanto. Sucede que numa sociedade laica e livre ninguém tem que se fixar às leituras alheias. A acusação, repetida por intelectuais ( e aparentados) de diversos quadrantes, de que, ao escolher a letra da Bíblia, Saramago manifesta um espírito fundamentalista igual ao dos que, em nome da sua Bíblia ( no caso, o Corão, que aliás tem muitos enredos e personagens em comum com a Bíblia), se explodem a si mesmos e aos outros, não tem razão de ser. Há uma diferença radical entre escrever e matar, perguntar e bombardear, exercer a liberdade e proibi-la. Estas mistificações têm um objectivo: o de rasurar como terroristas, loucos ou ignorantes os que pensam de maneira diferente. Isso, sim, é fundamentalismo. Verifico, com preocupação, que esse fundamentalismo permanece muito aceso em Portugal.

Saramago tem o direito de ler na Bíblia o que lá está escrito. Cada palavra existe na frase para dizer alguma coisa – é aquela palavra e não outra que lá está. Todo o livro digno desse nome traça um pacto sagrado com a justeza de cada palavra. Escreveu Walter Benjamin: « A arte de narrar tende a acabar porque o lado épico da verdade – a sabedoria – está a morrer». A obra de Saramago prova que esta morte não está iminente.

E conseguiu já um feito notável: trazer para o horário nobre da televisão o debate sobre os fundamentos da nossa civilização, o sentido da vida e da morte – em vez da politiquice e do futebol que são os únicos debates constantes neste nosso mundo de crentes.

Inês Pedrosa

Artigo publicado na revista "Única" do jornal Expresso, a 31 de Outubro de 2009